Ausência

January 29, 2019

 

A solidão não está apenas no vazio mas também na morte em vida. A solidão reveste-se de roupagens densas que a deixam passar despercebida pois ela não é apenas ausência. Entranha-se nas paredes das casas de famílias numerosas e em lençóis de casais que já não o são.

 

Na solidão habita uma raiva que se confunde com uma tristeza bem instalada e viciosa.

 

Essa raiva, que surge quando nos começamos a tolher física e psicologicamente e nos leva a sentir numa prisão. A raiva que teve de ser calada à força, que é mal vista, que não cai bem aos outros e que nos destrutura, quando não sabemos que a devemos e podemos expressar saudavelmente.

 

Afinal somos todos premiados quando somos “bonzinhos” e não levantamos grandes ondas mas a nossa natureza persiste, e, quando vem um ataque de nervos daqueles que tudo destrói, a seguir sentimos culpa e anestesiamo-nos das mais diversas formas. Como se a raiva não fosse um instinto e também criadora de vida. Como se nós não tivéssemos nascido com todas as emoções. Então nós encolhemo-nos.

 

Encolhemo-nos apesar das vozes na cabeça, dos ataques de nervos, das alergias, da dificuldade em respirar, da taquicardia, do suor, da comida devorada, das insónias e dos fantasmas. Deixamo-nos estar no nosso canto, na nossa prisão, e esperamos que algo aconteça e nos salve.

 

A vida não estabelece connosco um compromisso para nos salvar.

 

Cedermos a uma mente que conta histórias de um passado que é presente, um passado que cada vez é mais vivo e mais refinado porque repetimos as mesmas histórias vezes sem conta, é desastroso. Ficamos presos a obrigações, pactos, parcerias e ligações que já não nos servem, que nos matam em vida. E assim empenhamos o nosso futuro e perdemos a capacidade de ver opções. Se não há opções, passamos a achar ilusoriamente que chegámos ao fim da linha.

 

A solidão pede-nos uma análise à forma como nós construimos a nossa intimidade.

 

É também a oportunidade de resgatarmos a nossa autenticidade.

 

Pede-nos que paremos para olhar para nós, que façamos companhia a nós próprios, como se do nosso melhor amigo se tratasse.

 

É aí, nessa intimidade, que nos confrontamos com a ausência de nós próprios, e que entendemos finalmente que o que procuramos encontrar não está nos outros.

 

Sofia Pérez

Coach e Hipnoterapia Transpessoal

coachsofiaperez@gmail.com

 

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