A travessia do Casal Sagrado

October 15, 2019

 

Falava sobre os relacionamentos afetivos, baseada na minha experiência profissional e pessoal.

 

Anos a estudar, a evoluir, a cair e a levantar-me, a repetir padrões e a enfrentar desafios, até conseguir finalmente passar em muitos testes. Vêm outros desafios e outros testes, vêm sempre, mas agora a Consciência e a Presença já foram acionadas. E, apesar de tudo, sinto sempre que pouco sei. Vem-me aquela sensação de que ainda estou a dar os primeiros passos nesta longa e mágica caminhada que é a vida.

 

Tudo o que está oculto, as questões que nos ensombram e os nossos traumas mais profundos são acionados nos nossos relacionamentos afetivos. Se assim é, se todos esses turbilhões e desafios são acionados, o melhor caminho é aceitar que é mesmo assim e aproveitarmos a oportunidade para nos curarmos. Mas a nossa natural tendência é fugir. E vamos saltando de relacionamento em relacionamento em busca de algo que não existe e que é apenas fruto de uma ideia incompleta e distorcida que temos de nós próprios e, consequentemente, do outro e do mundo.

 

Para alcançarmos a realização plena num relacionamento afetivo é certo e sabido que temos de começar por nós.

 

Quando o nosso companheiro(a) nos desperta a dor e o desespero, está a acionar os nossos próprios traumas e condicionamentos. Assim, é imprescindível que comecemos seriamente a observar a forma como reagimos a comportamentos e palavras vindas dele(a), bem como, aos pensamentos que nos invadem nessas alturas.

 

Devemos questionar-nos: são pensamentos e reações que se repetem? São também o eco de pensamentos e reações de relacionamentos anteriores? Se assim for então deveremos analisar seriamente se estamos a repetir o mesmo padrão de relacionamento. E por outro lado, também devemos observar as nossas tentativas para controlar o outro e manipulá-lo para que tudo funcione como nós desejamos.

 

Obsessões, ansiedade, tensão constante, pensamentos ruminantes e medos inexplicáveis são comuns quando entramos nestas dinâmicas de relacionamentos. Criam-se relações de codependência em que o comportamento do nosso companheiro(a) ao afetar-nos tão profundamente torna-nos obcecados em controla-lo. E nestas dinâmicas somos os abusadores e os abusados e nem nos apercebemos do que se está a passar.

 

Padrões de codependência não resolvidos podem levar a problemas mais graves tais como o alcoolismo, transtornos alimentares e vícios dos mais variados tipos. Tudo isto não são mais do que tentativas desesperadas de fugir à dor e mantermos  o controle da nossa vida agarrando-nos a tudo o que nos é familiar.

 

As nossas marcas, traumas e feridas provocam em nós comportamentos e formas de reação que já nos são tão familiares que passamos a acreditar que somos assim e que nunca conseguiremos alterar a nossa forma de ser. Aqui começa o sofrimento, e, se estiver conscientes surge a necessidade de curar as nossas feridas e o desejo de mudança. Se por outro lado, não estamos conscientes de todos estes processos saltamos para outra relação e as mesmas dinâmicas e padrões voltam-se a repetir

 

Depois de estarmos enfim conscientes das nossas feridas vem um outro desafio: curarmos as feridas que identificámos.

 

Este desafio é um trabalho diário de auto-observação, em profundo respeito e aceitação por quem nós somos. Um trabalho que consiste em pequenos passos, um dia de cada vez, com muito amor por nós, aceitando tudo e ao mesmo tempo observando o nosso auto-julgamento e auto-punição. 

 

Por mais que queiramos curar a nossa ferida e mudarmos o nosso padrão, uma parte de nos está viciada no padrão de comportamento que essa ferida gerou. Um padrão familiar ao qual estamos profundamente agarrados. 

 

Surgem questões: Quem serei eu depois de curar a minha ferida abandonando os meus velhos padrões de comportamento? Será que vou ficar sozinho? Será que vou ser julgado, rejeitado, abandonado?

E vem o medo que caminha lado a lado com todo este processo de mudança, e a dor passa a ser nossa aliada pois empurra-nos para a mudança e inevitavelmente vemo-nos forçados a sair da nossa zona de conforto e a entrarmos em territórios desconhecidos que nos assustam e dos quais fugimos constantemente. 

 

Apesar de sabermos que a mudança é contínua e inevitável somos resistentes a ela. Essa resistência está também ligada ao vício que se entranhou em nós dos nossos padrões de comportamento. Esses padrões trazem a guerra para as nossas relações. Uma guerra que começa na nossa mente.

 

No processo de cura dessa ferida, tudo o que estava na sombra, oculto, vem à luz: as nossas memórias mais antigas; começamos a tomar contacto com as formas mais subtis da nossa existência e a ter consciência dos nossos padrões repetitivos e destrutivos. Quando nos deitamos e vamos sonhar, sabemos que os nossos sonhos são a linguagem do nosso inconsciente que funcionam como avisos, sinais, e, que nos trazem as respostas das nossas dores e feridas mais antigas.

 

Neste processo, o corpo inevitavelmente entra num turbilhão. Ansiedade, medo, dúvidas, dores físicas, doenças que os médicos não sabem explicar, são o contacto com tudo o que estava oculto. É o contacto profundo com a nossa intimidade e a nossa própria resistência a esse contacto. E deparamo-nos com o Caos.

 

O Caos que precede à Ordem. Ao aceitarmos esse caos, começamos a descarregar o nosso lixo emocional e os fardos que carregamos, e, aos poucos, vamo-nos libertando de tudo o que já não nos serve e que nos impede de termos relacionamentos felizes e plenos.

 

Quando finalmente conseguimos quebrar um padrão de comportamento destrutivo e repetitivo num relacionamento afetivo sentimos imediatamente a metamorfose que se deu em nós.

 

A libertação dessa parte de nós que nos controlava e atormentava há muito tempo é o retirar dos véus e a confrontação com a verdade. Acedemos assim a um auto-conhecimento muito para lá do possibilitado pela nossa mente.

 

A partir daqui nunca mais iremos olhar para nós próprios da mesma forma. Tudo mudou. Consequentemente essa nossa mudança vai transformar drasticamente a forma como vemos o nosso companheiro(a).

 

Neste estado de consciência temos as ferramentas que nos permitem dar a volta aos maiores desafios que os relacionamentos afetivos nos trazem. 

 

Um caminho de ascensão feito a dois. Se dá trabalho? Muito, mas este trabalho é imprescindível e faz parte da nossa natureza.

 

Se o Amor tem a capacidade de tudo curar então não há motivos para não empreender nesta busca pelo tipo de amor que todos desejamos: aquele que não nos prende, mas liberta. Aquele que nutre. Que transforma o pior de nós. Que potencia o nosso melhor. Que amplia a nossa sensibilidade e criatividade. Que nos empodera. Que nos torna maiores. Inquestionavelmente maiores.

 

Este é o caminho do Amor, a travessia do Casal Sagrado.

 

Sofia Pérez

Coaching - Hipnoterapia – Terapia Individual e de Casal - Constelações em Espelho- Xamanismo 

coachsofiaperez@gmail.com

www.coachsofiaperez.com

 

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