A mudança do Mundo e a Revolução da Consciência

July 31, 2020

Num dos últimos retiros que facilitei refletimos sobre como poderemos permanecer saudáveis física e emocionalmente nestes tempos sombrios que estamos a atravessar. Tempos de indefinição, de medos, de ansiedade e dúvidas.

 

Sugeri ao grupo que não desse respostas tais como: “deveremos alimentarmo-nos bem, praticar exercício físico, meditação”… Estas são respostas verdadeiras e absolutamente fundamentais mas eu propus que recorressem à sabedoria que emerge quando nos rendemos e aceitamos as circunstâncias da nossa vida sob um ponto de vista mais elevado, refletindo sobre como a vida não assume connosco um compromisso de honra para com os nossos planos, que a vida é infinitamente mais sábia e misteriosa.

 

Depois de um momento de silêncio, começaram a chegar os tesouros: “permanecermos unidos, inclusão, cooperação, lutarmos para permanecermos seres humanos, não existem os outros, mantermos a nossa integridade, estarmos atentos ao todo, incluir todos os seres vivos…”

 

Et voilá: Em grandes momentos de crise e de sofrimento surgem estes tesouros onde a sabedoria que habita em cada um de nós brota!

 

As emoções humanas são transversais a toda a Humanidade, quando falamos em “tempos sombrios” como os de Hoje, sabemos que já vivemos períodos assim várias vezes ao longo da História da Humanidade. Então não será estranho que estas tenham sido as expressões e as palavras que surgiram.

 

Em qualquer altura da História em que são experimentados “tempos sombrios” as demandas humanas são sempre as mesmas: vínculos, amor, relações, dignidade, respeito, confiança, felicidade, alegria, reconhecimento.

 

Este grupo já estava reunido há alguns dias, e é emocionante assistir à forma como as pessoas hoje recebem e vivem um trabalho como o de um retiro espiritual. Há uma entrega, uma humildade, um abandono do trivial e de tudo o que está fora. Há uma urgência num propósito comum: aliviar o sofrimento através da ampliação da consciência.

 

Se eu tivesse de escolher duas palavras ou expressões para resumir o sentido das palavras proferidas pelo grupo, elas seriam: solidariedade e dignidade humana.

 

Num tempo em que falta o toque, a proximidade, os abraços e em que assistimos diariamente a acontecimentos traumáticos, os nossos corações tendem a fechar. E vão ficando emaranhados em arame farpado que nos vai rasgando de dentro para fora. Surgem as doenças fruto de uma solidão e desamparo que se entranha em corpos que se vão deixando para morrer.

 

A solidariedade assume-se mais do que nunca como condição essencial para a nossa sobrevivência, bem como a luta pelo reconhecimento do que é a dignidade humana. Não podemos pretender alcançar uma felicidade individual sem a incorporar no reconhecimento de uma profunda afinidade com todos os seres, que compartilham o mesmo anseio de estarem livres do sofrimento. Estamos efetivamente todos ligados.

 

E talvez, aqui possamos refletir um pouco sobre o que consideramos ser a dignidade humana num mundo exacerbadamente voltado para resultados financeiros em detrimento do equilíbrio e do bem-estar das pessoas. O mundo mudou expondo toda a loucura e a doença. Já não é  mesmo possível permanecermos quietos e isolados ou morreremos de uma morte estúpida, desprovida de qualquer dignidade.

 

Não é humano agirmos só quando o nosso quintal começa a arder. E, em última instância, não é digno de um ser humano abandonar a ideia de lutar por um mundo melhor.

 

Se isso parece impossível a muitos de nós, existem aqueles que acreditam e que assistem a milagres a acontecerem diariamente, e sabem que, se não lutarem por um mundo melhor, a civilização tal como nos a conhecemos vai deixar de existir. Afinal já nos vamos apercebendo que estamos a ser ameaçados de “extinção”.

 

Poderemos ser nós a travar essa extinção? E se não formos nós quem será?...

 

Construirmos aqui e agora as infraestruturas que nos permitem passar a viver de uma maneira diferente é a única coisa que é possível fazer para travar esta ameaça. Está ao alcance de cada um de nós, a cada dia da nossa vida. E se julgamos que não temos essa capacidade, saibamos que isso não passa de uma crença gasta e empoeirada. Ouso ir mais longe, e arrisco-me a dizer que é a mentira mais bem contruída para nos “partir a espinha”.

 

Comecemos, então, por nos responsabilizarmos verdadeiramente pela consequência dos nossos atos que começam nos nossos pensamentos. Cada um de nós deverá saber identificar qual o tipo de relacionamento que estabelece consigo próprio por forma a poder identificar e curar traumas, crenças limitadoras, relações abusivas, padrões de comportamento autodestrutivos e vícios. Paralelamente ao longo desse caminho de autocuidado, autoconhecimento e amor próprio, assumirmos a responsabilidade de como estabelecer esse relacionamento na nossa sua esfera mais próxima, impactando e sendo impactado nesse intercâmbio de experiências.

 

São caminhos feitos sempre de dentro para fora. Virarmo-nos para dentro para nos podermos abrir a essa força de nos sentirmos vulneráveis e entregues. Confiando na nossa capacidade de nos adaptarmos a situações extremas.

 

Pensamos em termos de globalização mas hoje fala-se que temos de encarar a glocalização como o meio mais eficaz. São necessárias ações “glocais” para criar as fundações de uma nova sociedade: mudarmos a forma como nos relacionamos com o nosso Planeta. E, para isso, teremos inevitavelmente de mudar os nossos valores, questionando-nos sobre a forma como pensamos a nossa economia, os nossos governos e a nossa sociedade.

 

Todas as minhas esperanças residem nas crianças e nos millennials. Estes últimos vão para a rua gritar a sua inquietude. Vozes de revolta movidas a esperança de um mundo melhor, de uma grandeza e consciência tal que nos deixam boquiabertos. Como é que eles sabem disto?  Chegam a conclusões do verdadeiro sentido da vida onde muitos adultos nunca chegaram nem chegarão. Propõem quebrar as fronteiras, os limites, os preconceitos e basicamente, tudo o que nos separa. Começam a ver-se como seres “em extinção” onde rapazes e raparigas já não sabem se algum dia poderão ser Pais, se poderão viajar livremente ou verem os seus direitos fundamentais a serem respeitados. E essa consciência que brota deles, de uma possível “extinção” e da morte dos sonhos, propaga-se para a preservação de todos os seres vivos. E esta é provavelmente a maior revolução da consciência humana que a História da nossa Humanidade já viveu.

 

Esses millennials anseiam por inovação. Eles são rebeldes e já não se calam. Para quem tem dúvidas, que os escute verdadeiramente. Escutar é um processo muito mais complexo do que a maior parte das pessoas imagina. Escutar é libertarmo-nos completamente de nós mesmos, largar as teorias, as crenças, os conceitos, as ideias e os preconceitos que entopem a nossa mente. E, aqui, voltamos ao ponto de partida: para conseguirmos escutar verdadeiramente temos mesmo de, primeiro, fazer esse trabalho profundo em nós em relação àquilo que nos limita ferozmente.

 

Como é que poderemos escutar e abraçar plenamente essa entrega ao outro se não nos libertarmos da ideia do que achamos que somos acreditando em todo o ruído externo e da crença de que são as circunstâncias atuais que definem a nossa vida? Como é que nos  podemos amparar e nutrir para que assim o possamos fazer amorosamente pelos filhos do mundo? Somos todos, cada um à sua maneira,  fortes influenciadores das crianças, dos millennials, dos nossos filhos, alunos, família, amigos, companheiros. Se não o fizermos por nós, que o façamos por eles. E se o fizermos por eles, estaremos a fazê-lo por nós próprios também.

 

Todos temos motivos muito fortes para nos unirmos em prol de uma sociedade mais cooperante, mais humana, mais digna. Todos nós estamos a padecer de alguma maneira. Este é o tempo de agir num mundo imprevisível, inesperado, indeterminado, desconhecido. Só movidos por uma fé sólida, de uma força e um propósito comum inabaláveis é que o conseguiremos fazer.

 

Chegou o Tempo!

 

Sofia Pérez

Terapia Integrativa

www.coachsofiaperez.com

coachsofiaperez@gmail.com

 

 

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